Nos dias 23 e 24 de maio de 2024 aconteceu no Centro de Formação Boa Nova, em Alta Floresta, o Encontro da Agricultura Familiar. O evento reuniu cerca de 70 pessoas de oito municípios do território Portal da Amazônia, sendo agricultores, professores, técnicos e agentes públicos tanto dos municípios quanto do Estado, incluindo representação do Ministério do Desenvolvimento Agrário – MDA, através do superintendente do órgão no Estado, Nelson Borges.
Organizado pelo Programa de Pesquisa em Resiliência da Agricultura Familiar que reúne pesquisadores de seis universidades (UNEMAT, UFSCAR, UFMG, USP, Universidade da Flórida e Universidade de Exeter) e o Instituto Ouro Verde (IOV), o evento teve como objetivo “compartilhar os resultados de um projeto de pesquisa desenvolvido na região há dois anos com recursos da FAPESP e criar uma agenda de futuro da e para a agricultura familiar que fortaleça a resiliência do setor na região, garantindo segurança e soberania alimentar, inclusão social e renda para as famílias agricultoras. Trata-se do Projeto ‘Resiliência frente à Covid: adaptações para fortalecimento da agricultura familiar em região de fronteira agrícola amazônica’, financiado pela Fapesp.
A coordenadora do Projeto, professora-pesquisadora Renata Evangelista de Oliveira (UFSCAR), descreve um pouco do processo relacionado a pesquisa, que tem a culminância com o Encontro da Agricultura Familiar: “Vai fazer 10 anos o ano que vem, em que a gente vem tentando estudar os fatores que fortalecem, que afetam a agricultura familiar em diferentes dimensões. Essa questão da produção, da geração de renda, da ocupação do solo, do meio ambiente, da gestão, da organização social dessas pessoas. E a gente vem trabalhando desde a escala local, desde a parcela lá na propriedade, passando pela comunidade, o município, o Estado até chegar no Território Portal da Amazônia.”
Renata ainda complementa citando um diferencial dessa pesquisa, que tem um grande impacto social com objetivo de atender a demanda das pessoas. Conforme ela explica, “…ao contrário do que acontece na maioria das pesquisas desenvolvidas por universidades, em que a universidade procura as pessoas para participarem da pesquisa, aconteceu o contrário. Nós, enquanto universidades, fomos atender uma demanda dos agricultores e agricultoras”.
A partir da pesquisa, uma longa trajetória da análise do território se sucedeu, até chegar ao momento do Encontro, que compreende a partilha dos resultados. Nesse sentido, Alexandre de Azevedo Olival, professor-pesquisador da Unemat e membro do grupo de pesquisa, explica que a mobilização para realização do Encontro foi feita pelo Instituto Ouro Verde e por membros da equipe de pesquisa do projeto – especialmente o professor-pesquisador, Wagner Gervazio, que realizaram o contato com os gestores públicos, principalmente secretarias de agricultura e organizações ligadas à agricultura familiar, juntando sociedade civil e a esfera pública. Paralelo a estes contatos, foi feita a mobilização das lideranças e componentes das diversas comunidades localizadas no território.
Com a mobilização, o evento contou com a apresentação de resultados da pesquisa desenvolvida no território; atividades em grupo e identificação dos desafios e conflitos que afetam a agricultura familiar; momentos de interação e compartilhamento de experiências; e, por fim, encaminhamentos do encontro, que culminaram na produção de dois documentos: uma carta de repúdio relacionada a perseguição e ameaças sofridas pelos assentados deste território e o MANIFESTO PELA AGRICULTURA FAMILIAR DE BASE AGROECOLÓGICA E PRODUÇÃO SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA MATO-GROSSENSE.
Renata enfatiza a necessidade de valorização dessa ação pela multidisciplinaridade contida no processo. Ela aponta que: “…o evento propiciou um diálogo entre agricultores, agricultoras familiares, educadores, agentes de saúde, representante direto do Ministério do desenvolvimento Agrário… Colocar numa mesma sala, no mesmo evento, Ibama, educadores, secretários de agricultura, superintendente do MDA, organizações de terceiro setor, estudantes universitários, estudantes de escola técnica, pesquisadores, extensionistas e professores universitários, não é todo dia que isso acontece não! Então, a gente voltou muito contente”.
Para a organização do evento, um dos elementos primordiais é que se trata de uma agenda propositiva. O Manifesto apresenta os principais resultados da articulação de pesquisadores, lideranças comunitárias, organizações de terceiro setor, movimentos sociais, gestores públicos, agricultores e agricultoras familiares, que desde 2014 atuam para o fortalecimento da resiliência da Agricultura familiar na região. A partir desse contexto, traz recomendações para a formulação, implantação e desenvolvimento de políticas públicas, nas instâncias federal, estadual e municipal. Renata explica que “…a gente não está fazendo só um diagnóstico, a gente não está só levantando dados assim que dizem […] Mas, como é que a gente faz isso virar a política pública – política pública direcionada para a realidade local”.

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